A alma durante a Morte

A alma do homem, segundo a Cabalah, não é mais do que a passagem a uma nova forma de existência. O homem, é chamado a retornar, finalmente, ao seio de Deus, mas esta união não poderá ser possível devido ao seu estado atual, em razão da grosseira materialidade de seu ser; esse estado, assim como tudo que existe de espiritual no homem, deve portanto sofrer a purificação necessária para obter o grau de espiritualidade que a nova vida vai requerer.
A cabalah distingue duas causas que podem levar à morte: a primeira consiste em que a Divindade diminui sucessivamente ou suprime bruscamente sua influência contínua sobre Neschamah e Ruach, de modo que Nephesh perde a força pela qual o corpo material é animado; isto é a morte. Dentro do Zohar, esta primeira espécie de morte poderia se chamar de "morte por cima, ou de dentro para fora".

Em oposição a ela, a segunda causa de morte é a que se poderia chamar de "morte por baixo ou de fora para dentro". Consiste em que o corpo, forma de existência inferior e exterior, desorganiza-se sob a influência de alguma perturbação ou lesão e perde a dupla propriedade de receber do alto a influência necessária de excitar Nephesch, Ruach e Neschamah, a fim de fazê-los descer até ele.

Além disso, cada um dos três graus de existência do homem tem, no corpo humano, sua sede particular e sua esfera de atividade, que correspondem ao seu grau de espiritualidade. Esses três graus de existência encontram-se ligados aos corpos em diferentes períodos da vida. É também em momentos diferentes e segundo uma ordem inversa que eles abandonam o cadáver. Por isso o trabalho de morte se estende a um período de tempo muito maior do que se imagina.

Neschamah tem sua sede no cérebro, na qualidade de princípio da vida espiritual superior e une-se ao corpo material em último lugar (essa união começa na puberdade). Na morte, Neschamah é o primeiro elemento a deixar o corpo; geralmente isso acontece antes do momento que designamos por "morte". Ela deixa em seu "Mercabah"(carro) apenas uma iluminação. É através desta que a personalidade do homem pode subsistir, embora sem a presença efetiva de Neschamah.

Antes do momento da morte, a essência do homem é aumentada por um Ruach mais elevado, com o qual ele vê o que durante a vida estava oculto a seus olhos; frequentemente sua visão rompe o espaço e pode distinguir seus amigos e parentes mortos. Assim que chega ao momento crítico, Ruach se propaga por todos os membros do corpo e despede-se deles; disso resulta uma agitação ou agonia, frequentemente muito penosa. Depois toda a essência espiritual do homem retira-se para o coração, e lá se põe sobre ao abrigo dos Masakim (ou maus espíritos) que se precipitam sobre o cadáver.

A separação de Ruach do corpo é penosa, porque Ruach ou alma viva flutua entre as altas regiões espirituais, infinitas (Neschamah), e as inferiores corporais (Nephesch), inclinando-se tanto em direção de uma como de outra, ela que, enquanto órgão da vontade, constitui a personalidade humana. Seu centro é o coração, é este pois a base da vida, é o ponto central, o rei, o Melech, o traço de união entre o cérebro e o fígado, e como é nesse órgão que a atividade vital manifesta-se originariamente, é também nela que termina. Assim, no momento da morte Ruach escapa e, segundo o ensinamento do Talmude, sai do coração pela boca durante o último suspiro.

O Talmude distingue novecentas espécies de mortes diferentes, mais ou menos dolorosas. A mais doce de todas é que tem o nome de "beijo"; a mais penosa é aquela em que o moribundo experimenta a sensação de uma espessa corda em volta do pescoço.

Uma vez Ruach separada, o homem parece morto, entretanto Nephesh ainda habita nele. Esta vida corpórea do concreto é no homem a alma da vida elementar; seu centro localiza-se no fígado. Nephesh, que é a potência espiritual inferior, possui ainda uma grande afinidade e portanto, muita atração para o corpo. É o principío que se separa por último, como também foi o primeiro a unir-se à carne. Entretanto, logo após a partida de Ruach, os Masikim tomam posse do cadáver (segundo Isaac Luria, eles se amontoam á sua volta a uma altura de quinze varas). Esta invasão e a decomposição do corpo obrigam Nephesch a se retirar; ele fica ainda, durante muito tempo, ao redor de seus despojos, para chorar a perda. Geralmente só quando sobrevém a putrefação completa é que ele se eleva acima da esfera terrestre.

Essa desintegração do homem, consecutiva à morte, não é entretanto uma separação completa, porque o que foi uma vez um todo não pode absolutamente se desunir, sempre resta alguma relação entre as partes constitutivas. Assim, ainda vai existir uma relação entre Nephesch e seu corpo putrefato. Depois desse recipiente material exterior ter expelido suas forças físicas vitais, resta ainda algo no princípio espiritual de Nephesch, alguma coisa de imperecível, que desce até o túmulo, até os ossos, é o que a cabalah chama de sopro dos ossos ou espírito dos ossos. O princípio íntimo imperecível do corpo material, que conserva completamente a forma e o andar, constitui o Habal de Garmin, que podemos traduzir por "corpo de ressurreição" (corpo astral luminoso).

Depois que as diversas partes constitutivas do homem estão separadas pela morte, cada uma retorna à esfera que é atraída por sua natureza e constituição; ali elas são acompanhadas pelos seres que lhe são semelhantes e que as rodeiam desde o leito de morte.

No universo inteiro, tudo está em tudo, nascendo, vivendo e perecendo de acordo com uma única lei, como o mais elementar é a reprodução do mais elevado, com os mesmo princípios regendo igualmente todas as criaturas desde o mais ínfimo até os seres mais espiritualizados, as potências mais elevadas, o universo inteiro que a cabalah denomina de Atziluth, que compreende todos os graus desde a matéria mais grosseira até a mais espiritualizada - até a Unidade.

Segundo a cabalah o Universo se divide em três mundos: Asiah, Yetsirah e Briah que definiremos melhor num proximo artigo. Esses três mundos correspondem, segundo sua natureza e seu grau de espiritualidade, aos três princípios constitutivos do homem e representam as diferentes moradas desses princípios. O corpo, como forma de existência mais material do homem, fica nas esferas inferiores do mundo de Asiah, no túmulo. O espírito dos ossos fica só, sepultado nele, constituindo oque dissemos, o Habal de Garmin. Na tumba ele está num estado de obscura letargia, que para o justo, é um doce sono. Como o Habal de Garmin conserva na tumba uma sensação obscura, o repouso daqueles que dormem, este último sono pode ser perturbado de várias maneiras. Por isso, era proibido, entre os judeus, enterrar lado a lado pessoas que durante a vida tivessem sido inimigas, ou de colocar um homem santo junto a um criminoso. Tinha-se o cuidado, ao contrário, de enterrar junto as pessoas que se amavam, porque na morte esse amor ainda persiste.
A maior perturbação para os que ainda dormem na tumba é a evocação; por que mesmo que Nephesch tenha abandonado a sepultura, o "espírito dos ossos" fica ainda ligado ao cadáver, e pode ser evocado, mas esta evocação ainda fere Nephesh, Ruach e Neschamah.
Sem dúvida eles já estão em moradias diferentes, mas nem por isso ficam menos unidos sob certos aspectos, de maneira que um se ressente do que os outros experimentam. Eis aí por que a Santa Escritura ( 5,Moisés 18-11 ) proibia a evocação dos mortos.
Como nossos sentidos materiais só podem perceber o círculo mais baixo, a esfera mais inferior do mundo de Asiah, somente o corpo do homem é visível aos olhos físicos; é ele que, mesmo após a morte fica no domínio do mundo sensível; as esferas superiores de Asiah já não nos perceptíveis e da mesma forma, o Habal de Garmin escapa já a nossa percepção. Se isso nos fosse permitido aos nossos olhos, poderíamos ver, à noite, quando chega o Schabbath, ou na lua nova , os Diuknim (espectros) se levantarem do túmulos para louvar e glorificar o Senhor.
As esferas superiores do mundo de Asiah servem de morada a Nephesch. O Etz-ha-Chaiim (árvore da vida) descreve essa morada como o Gan-Eden Inferior, que significa jardim da volúpia. No Talmude e na Cabalah é também chamado de Pardes ou Jardim do Prazer, de onde vem a palavra paraíso.
O que percebemos nas aparições de pessoas mortas é seu Habal de Garmin; é a matéria sutil aérea ou etérea do mundo de Asiah, de que se reveste o Zelem de Nephesch, para se tornar perceptível a nossos sentidos físicos. Por Zelem, a cabala entende a figura, vestimenta sob a qual subsistem os diversos princípios do homem pela qual agem. Segundo Isaac Luria, os Zelem, por analogia com toda natureza humana se dividem em três parte: uma luz interior espiritual e dois Makifim ou luzes envolventes. Também a cabala nos diz que, trinta dias antes da morte do homem, os Makifim se retiram primeiro de Neschamah, para em seguida desaparecem, sucessivamente de Ruach e de Nephesch.
Isso se aplica a qualquer tipo de aparição, seja de um anjo, seja da alma de um morto, ou de um espírito inferior. Então, não é o Zelem que podemos ver e perceber através de nossos olhos mas sim uma imagem que, construída com o vapor sutil de nosso mundo exterior, toma uma forma suscetível de se dissolver.
Assim como a vida dos homens sobre a terra apresenta múltiplas variedades, também é diversa sua sorte nos outros mundos; porque quanto mais infrações se tiver cometido aqui embaixo, à lei divina, tanto mais será preciso sofrer no outro mundo castigos e purificações.
A beleza do Zelem do homem piedoso depende das boas obras que tenha feito aqui embaixo. O pecado mancha o Zelem de Nephesch. Junto ao homem piedoso, os Zelem são puros e claros; junto ao pecador, são turvos e sombrios.
É por isso que cada mundo tem, para cada um dos princípios do homem, seu Gan-Eden (Paraíso), seu Nahar Dinur (rio de fogo para purificação da alma) e seu Gei-Hinam (lugar de tortura para o castigo), e surge daí também a doutrina cristã do céu e do inferno.