
Como Rosacruzes, estamos bem familiarizados com o espelho, que é um dos acessórios principais de nosso Sanctum particular. Vamos aqui tentar aprofundar um pouco seu valor simbólico refletindo sobre os vários sentidos ocultos.
O espelho ("speculum", em latim) é um dos maiores símbolos da tradição esotérica. Em sua origem, este podia ser natural, com a superfície de um líquido, ou também fabricado cm um pedaço de metal polido. É preciso notar que ele produziu o verbo "especular", que consiste na especulação, no início, na observação do céu com a ajuda de um espelho.
A função principal do espelho é de refletir a luz e de refletir os objetos que estão diante dele. Sem luz, o espelho é inútil. Consequentemente, ele participa intimamente do simbolismo da iluminação. O verbo "refletir" implica na idéia da reflexão. A reflexão é a ação de colocar em movimento, de recurvar, de refletir a luz da inteligência. O espelho é portanto, um símbolo associado ao conhecimento, como também à verdade e à consciência. Com relação a isso, a tradição oriental nos fal de um espelho do carma utilizado por Yama, o soberano do reino ds mortos, quando do julgamento da alma.
O fato de refletir a luz do Sol faz do espelho um símbolo lunar e passivo. Contudo, em certos países como
o Japão, ele também é considerado solar. Lá, o espelho, ou "kagami", é o símbolo da deusa solar Amaterasu, e representa também a perfeição, harmonia e a pureza da alma. Quanto ao Sol, este é comparado a um espelho que reflete a luz divina.
Pelo fato de simbolizar o conhecimento, a sabedoria e a iluminação, o espelho - para assumir plenamente esta função - deve ser brilhante e estar perfeitamente limpo; é nessas condições que ele pode refletir a pureza, a sinceridade e a verdade. Ao contrário, quando está coberto de pó, representa o espírito obscurecido pela ignorância.
Às vezes, na ausência do vento, a vastidão de um lago funciona como um espelho. Durante este período, a superfície da água está suficientemente tranquila para refletir as coisas ao seu redor, mas também para permitir aos olhos penetrarem em suas profundezas. Trata-se então de ir além das aparências, além da visão. A título de exemplo, a lua que se reflete na água não é o próprio astro. Consequentemente, o espelho na tradição védica, representa também a miragem e a mudança permanente das formas. É, portanto, essencial se lembrar de que o espelho não é o objeto que ele reflete, mas um utensílio, um instrumento. Retornando à etimologia, 'speculum', a especulação não penetra nas profundezas das coisas, pois ela se apoia unicamente no intelecto. É preciso então saber sair do mundo das realizações terrenas para ir além do espelho e ter acesso à realidade cósmica. Em outras palavras, o iniciado deve se libertar da ilusão se quiser ter acesso ao Conhecimento.
Segundo o Bushido, ou código de honra do samurai, o sabre era considerado a alma do guerreiro. Assim como o espelho, o sabre, quando da sua fabricação, deveria ser polido com cuidado para ficar o mais perfeito possível. Aplicado à alma humana, o ato de polir refere-se à idéia de aperfeiçoamento, da ética, de retidão ( de onde vem a fórmula iniciática V.I.T.R.I.O.L. "Visita Interiorem Terrae Rectificando Invenies Ocultum Lapidem", que pode ser traduzida como " explore o interior de si mesmo e, transformando-se, descubra seu tesouro oculto". De fato, o coração do homem deve refletir a beleza das virtudes da alma. O tema da alma considerada como espelho foi desen
volvido por Platão, depois por Plotino, que , em suas Enéadas, escreve que a alma teria um lado inferior voltado para o corpo e um lado superior voltado para a inteligência.
volvido por Platão, depois por Plotino, que , em suas Enéadas, escreve que a alma teria um lado inferior voltado para o corpo e um lado superior voltado para a inteligência.O uso do espelho como elemento mágico é quase universal. Ele também é encontrado tanto entre os antigos persas quanto em Pitágoras, nos taoístas, nos adivinhos africanos ou nos xamâs da
Àsia Central. Seu emprego é bem antigo, especialmente para ler o presente, o passado e o futuro. De fato, ele foi sempre usado como meio de adivinhação pelos magos, quer se tratasse de um espelho verdadeiro ou de um espelho natural. Não é por acaso que se atribui um espelho mágico à rainha malvada no famoso conto de fadas: " Branca de Neve e os Sete Anões".
No nível ontológico, o espelho está ligado ao simbolismo da Criação, com os conceitos de 'refletidor' e de 'refletido'. Se o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, é também o espelho no qual a Divindade deve-se contemplar, e a Divindade é o espelho que reflete para o homem sua própria perfeição. Segundo Ângelus Silesius, o coração do homem é um espelho que reflete Deus e, entre os budistas, o espelho do coração reflete a natureza de Buda.
No plano hermético, o homem e o universo estão na posição de dois espelhos, o microscosmo reflete o macrocosmo, e vice-versa. Isso nos faz lembrar da famosa Tábua Esmeraldina, que diz que: 'O que está encima é como o que está embaixo'. Consequentemente, estudando o homem, descobre-se também as leis que regem o macrocosmo, e vice-versa. Isso também foi plenamente compreeendido pelos Rosacruzes do passado que recomendavam que se estudadess o "Liber M", o grande Livro do Mundo, já que o Todo está em todas as coisas e todas as coisas estão no Todo.
No islamismo, um famoso hadîth ( lendas e histórias sobre a vida de Maomé ) nos diz que o crente é o espelho do crente. É isso que chamamos de efeito espelho, em outras palavras, o outro nos reflete, dependendo da natureza de nossos pensamentos, os aspectos positivos ou negativos de nossa personalidade. Quanto mais a face da alma for polida pela espiritualidade, tanto mais o espelho será capaz de refletir o que rodeia e até os pensamentos mais ocultos dos outros. Assim, o homem reflete a beleza ou a feiúra segundo a orientação de seu espelho interior.
Considerando o que foi dito acima, podemos deduzir que o espelho nos convida a nos aperfeiçoarmos, a manifestarmos a beleza das virtudes a fim de que possamos esclarecer o nosso próximo e lhe mostrar a via do conhecimento e da iluminação. É importante, então, polir o espelho de nossa alma a fim de que ela seja a mais perfeita possível capaz de refletir a Luz maior. Como símbolo da pureza da alma e do conhecimento de si mesmo, o espelho nos convida mais especificamente a dar provas de sinceridade e de pureza em nossa jornada iniciática e mística.
Com o uso adequado de nosso espelho interior, podemos refletir o que há de melhor em nós, e também devolver ao outro seu próprio reflexo. Trabalhar com os diferentes aspectos do espelho também faz parte dos deveres do iniciado. Isso Implica especialmente desenvolver a capacidade de refletir; refletir a luz da inteligência e da alma. É, portanto, bastante útil meditar e trabalhar sobre o simbolismo do espelho a fim de atingir a plena consciência do que pode nos acontecer na senda do Conhecimento. Fazendo isso, poderemos colocar em prática mais facilmente o efeito do espelho em nossa vida cotidiana e nos nossos relacionamentos com os outros, a fim de fazer irradiar muito mais a luz da espiritualidade.
Paz Profunda e Boa Semana.



